quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sobre as estrelas

O céu é naturalmente o espaço mais vasto para indagações e descobertas. Quando era menino, me fascinavam as estrelas, sobretudo a mágica de sua flutuabilidade.

Agora, já crescido, apesar de ter trocado a mágica por fato, olho para o céu e consigo definir melhor aquele sentimento...  

Sem dúvida algo etéreo, como no ideal dos ultra-românticos; constante, como é justo que seja, e permanentemente misterioso - diante da sua surpreendente grandiosidade.

Apesar do que possa aparentar, não amo platon
icamente nenhuma figura feminina inalcançável, embora Andrômeda seja uma “princesa” fabulosa.

Constelaçao de Andrômeda - A princesa foi acorrentada para aplacar a ira de Cetus (monstro enviado por Poseidon), mas foi salva por Perseus montando seu cavalo alado (Pegasus).


Conforme indicado na representação da constelação, a Galáxia de Andromeda, também conhecida como M31 ou NGC 224, pode ser encontrada próxima do lado esquerdo da "princesa andromeda". Essa galáxia possui entre 180 e 220 mil anos luz de diâmetro. É a maior galáxia do Grupo Local de Galáxias, ao qual a Via Láctea pertence. Por estar no Grupo Local, a Galáxia de Andromeda pode ser vista por telescópios baseados na Terra.


Acerca da beleza da rainha Cassiopéia o mesmo pode ser dito, a despeito dela ter sido colocada de cabeça para baixo pelos deuses como forma de castigo por sua presunção - vide o espelho que ela sustentou para se auto-proclamar como a mais bela de todas.

Constelação de Cassiopéia - Diz o mito que a rainha Cassiopéia ousou comparar sua beleza com a das Nereidas (filhas do deus Poseidon), por isso Poseidon ameaçou inundar a Etiópia se sua filha Andromeda não fosse oferecida em sacrifício ao monstro Cetus.


Na constelação de Cassiopéia pode ser encontrada a "nebulosa de bolha", também conhecida como NGC 7635. Essa nebulosa tem o formato de bolha devido a uma nuvem molecular que envolve uma estrela jovem (SAO 20575) emanando um vento solar muito forte, o que causa a expansão da bolha. A forte influência do vento solar se deve à grande massa da estrela, que acredita-se ser de 10 a 40 massas solares.

O fato é que um tipo especial de amor nasce quando se aprende a enxergar beleza na simplicidade e engenhosidade da natureza. Afortunadamente, num dia de céu aberto, percebi que as estrelas reuniam o máximo destas duas qualidades.

A grande maioria trata-se de sóis “flutuando” em todas as direções do espaço que, com aparente simplicidade, convertem parte de sua matéria em luz visível e outros variados tipos de radiação do espectro eletromagnético. Um exemplo muito belo e visível a olho nu destes sóis em grupamento são as Plêiades ou Sete Irmãs.
 
Plêiades - Também conhecidas como M45, são um grupo de estrelas jovens (muito azuis por esse motivo) que localizam-se na constelação de Touro e são facilmente observáveis a olho nu. Em condições ótimas de observação, é possível visualizar 14 estrelas do aglomerado, que provavelmente tem em torno de 1000 estrelas. A distância aproximada deste cluster é de 440 anos luz da Terra.

Outros exemplos fascinantes de grupamentos de estrelas são o Aglomerado de Borboleta e o Aglomerado Kappa Crucis, também conhecido como Caixa de Jóias.

Aglomerado de Borboleta - Localizado na constelação de Escorpião, esse aglomerado aberto possui aproximadamente 12 anos luz. A distância da Terra é estimada em 1600 anos luz. Também conhecido com M6, o aglomerado de borboleta apresenta em sua maioria estrelas azuis tipo B, embora seja uma estela laranja tipo K (BM Scorpii) a mais brilhante.

Aglomerado Caixa de Jóias - Situado a 6445 anos luz da Terra, esse aglomerado localiza-se na Contelação de Crux, também conhecida como Cruzeiro do Sul. A grosso modo, pode-se dizer que o aglomerado fica à esquerda do Curzeiro do Sul. O aglomerado em questão (NGC 4755) tem como principal estrela a Kappa Crucis, cuja magnitude aparente é de 5,98.

Entretanto algumas estrelas, apesar de solitárias, destacam-se muito mais no céu. É o caso de Sírius da constelação de Cão Maior. Essa estrela é a mais brilhante do firmamento. Em grande parte, o que contribui para isso é o fato dela ser uma das mais próximas da Terra (8,5 anos luz) e ter cerca de 2,4 vezes a massa do Sol.

Estrela Sirius - Localizada na constelação de Cão Maior, esse corpo celeste é binário, ou seja, composto de duas estrelas, orbitando uma a outra. O fato é que vemos sempre Sírius A, pois sua companheira Sírius B envelheceu e tornou-se uma anã branca com 10 mil vezes menos luminosidade (no espectro visível) que Sirius A. Na escala de magnitude aparente, em que valores negativos correspondem ao maior brilho, Sírius A é classificada como -1,46, o que a faz a estrela mais brilhante do céu. Na foto percebe-se o contraste que há entre Sírius A e as outras estrelas que compõem a constelação de Cão Maior.

Já Antares, a estrela mais brilhante da constelação de Escorpião, sustenta essa reputação por se tratar de uma gigante vermelha com 400 vezes o diâmetro do Sol, que irradia 10000 vezes mais luz visível que a estrela do nosso sistema, por isso mesmo estando a 600 anos luz de distância ela sempre é presença marcante no céu noturno. 

Estrela Antares - Nesta fotografia a constelação de Escorpião aparece alinhada das pinças até a cauda, da esquerda para a direita. Ao centro e na extrema esquerda vê-se três estrelas azuis equidistantes. As estrelas periféricas correspondem às pinças do escorpião, enquanto a estrela do meio representa a cabeça. As três "estrelas azuis" se ligam à "estrela amarela"(Antares) e formam o que seria a ligação das pinças e da cabeça ao "coração" do escorpião, que é Antares. Da esquerda para a direita, as demais estrelas azuis que seguem depois de Antares formam uma cauda que se dobra para baixo. 


Outra estrela, ou melhor, sistema de estrelas, que figura no "surpreendente" do firmamento é Albireo, a terceira estrela mais brilhante da Constelãção de Cisne. Esse sistema (β Cygni A e β Cygni B) é o par que realiza uma das mais longas valsas celestes com β Cygni B orbitando β Cygni A a cada 75000 anos.  

 Albireo - Neste sistema de estrelas, a mais facilmente visível é β Cygni A (a estrela amarelada de magnitude aparente 3,1), que acreditava-se ser única, enquanto a menos visível é β Cygni B (a estrela azul de magnitude aparente 5,1). Por questão de padrões diferentes de nomenclatura β Cygni deveria representar a segunda estrela mais brilhante da Constelação de Cisne, entretanto γ Cygni é, de fato, ligeiramente mais brilhante que Albireo e ocupa o segundo lugar em ordem de grandeza.


E, como se não bastasse a infinidade de elementos para serem contemplados, a admirável engenhosidade da natureza não permite que a morte de uma estrela implique num vazio existencial no universo. Ao contrário, quando uma estrela morre, grande parte de sua matéria ejetada servirá pára acender outra(s).

Um desses processos nos quais a eternidade da vida é propagada ad infinitum, provavelmente ocorrerá com a estrela Eta Carinae. Devido a sua instabilidade, já houve ejeção de matéria da estrela, criando o que ficou conhecido como a Nebulosa Homúnculo, em destaque no alto e ao centro da fotografia.   

Nebulosa Homúnculo - Localizada na Constelação de Carina (Quilha), também é conhecida como Nebulosa de Carina (NGC 3372) pois originou-se da enorme ejeção esférica de gases(400 vezes mais extensa que o Sistema Solar) da gigante Eta Carinae, com aproximadamente 150 vezes a massa do nosso Sol. Essa estrela, que recentemente descobriu-se tratar de um sistema binário, dista 7500 anos luz da Terra, chegou a brilhar mais que Sirius em 1830, e devido a sua instabilidade tem grande potencial para tornar-se uma supernova. 

Estrelas tão massivas quanto Eta Carinae não são tão raras e  tem o potencial para dar origem a eventos supernova ou até hipernova, que caracterizam-se pela destruição da estrela com o violento lançamento de até 90% de sua massa espaço a fora. 

Apesar de drásticos, eventos como esses possibilitaram o surgimento do nosso Sol e até mesmo da nossa Galáxia, pois nuvens moleculares precisam se aglutinar para formar estrelas e planetas por meio do fenômeno de acresção. E, para o acontecimento deste último, a matéria e as ondas de choque de uma estrela que explode contribuem para rotacionar essas nuvens e concentar a matéria em pontos determinados para a formação dos novos corpos celestes, daí a associação com o formato espiral de boa parte das galáxias.  

Supernova - Assim como nessa concepção artística, os eventos "supernova tipo Ib e Ic caracterizam-se por uma série de processos desencadeados na morte estelar de corpos celestes com massa superior a 10 vezes a do nosso Sol, que culminam numa violenta explosão com ejeção de até 90% de sua matéria a 30000 km/s, e principalmente emissão de pulsos de raios gama na velocidade da luz com o potencial de destruição de planetas que estejam a menos de 3000 anos-luz do evento.    

O mais fantástico dessa dinâmica da natureza é que numa estrela, a explosão da morte é também a explosão da vida, ou seja, morte e nascimento são faces de um mesmo evento, que pode muito bem ser traduzido na perfeita acepção da palavra "transformação". Coincidência ou não, no hinduísmo o deus Shiva (o Transformador), é aquele cuja dança regula o ritmo de criação e destruição do universo. 

Similaridades místicas a parte, o que atualmente é a Nebulosa de Órion, fracamente visível a olho nu sem poluição luminosa, já foi o reduto de estrelas massivas em colapso, que explodiram dissipando matéria num raio de 12 anos luz. Estimativas recentes dão conta de que neste berço primordial já nasceram ao menos 3000 novas estrelas.  

Nebulosa de Órion - Localizada na Constelação de Órion, mais precisamente ao sul do cinto do caçador (Três marias), é uma das nebulosas mais fotografadas e estudadas pela astronomia, uma vez que constitui um berço de formação de estrelas e até sistemas solares. Essa nebulosa (NGC 1976) dista aproximadamente 1270 anos luz da Terra e possui um diâmetro de 24 anos luz, espaço suficiente para abrigar as 3000 mil estrelas já formadas.

Por fim, como espectadores privilegiados desses intermináveis ciclos de criação e destruição, sempre poderemos contar com as estrelas como fonte segura de inspiração e companhia, uma vez que invariavelmente ocuparão suas devidas posições no céu, prontas a nos mostrar que os dias de chuva ou nublados existirão, mas que nunca serão capazes de apagá-las. 

Além de tudo, quando perdidos...
...com o mesmo propósito que serviram aos navegantes, as estrelas podem surgir na vida em forma de providência, casual ou divina, de um retorno seguro ao lar.  

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sobre a música

Entre todas as artes, particularmente, a música me soa como uma das mais sublimes. Inspiração, técnica, devoção, fé e sentimento parecem se congregar no comum intuito de desenvolver e elevar as mais nobres facetas do espírito humano.

De tudo o que a música proporciona, a felicidade e completude como fruição de sua beleza são inquestionáveis. Segundo Freud, a contemplação das artes vem de encontro a uma das formas de satisfação que precisamos obter na vida, uma vez que nossas cotas de prazer se afunilaram mediante a necessidade de sublimações no mundo civilizado.

Creio, pessoalmente, que a música vem para algo além do que preencher lacunas. A boa música certamente vem para serenizar nossas ações, lapidar nossos sentimentos, inspirar nossos amores e modificar irreversivelmente a maneira como vemos o mundo. Assim têm acontecido ao longo da trajetória dos movimentos filosóficos e artísticos ocidentais.

No período barroco, por exemplo, no qual se buscou amparar os anseios da sociedade na temática da espiritualidade e religião, compositores como Bach, Vivaldi e Händel produziram o Concerto para Dois Violinos BWV 1043, o Gloria in Excelsis Deo RV. 589 e o Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258, respectivamente. Obras essas que não tinham obrigatoriamente conteúdo religioso, mas obedeciam à estética barroca.

Já no período clássico, no qual a razão foi elevada ao status de elemento norteador da conduta humana e o equilíbrio e claridade herdados do movimento iluminista predominaram, grandes nomes como Mozart, Beethoven e Haydn compuseram, respectivamente, a Sinfonia nº42 K.75, a Sinfonia nº2 Op. 36 e a Sonata para Piano Hob. XVI/34.

Mais tarde, no romantismo, surgiram compositores como Chopin, Tchaikovsky e Grieg subjugando o rigor formal do classicismo à expressão de emoções; pessoais ou compartilhadas pela coletividade. Entre estes compositores, Chopin, com o seu Étude Révolutionaire nº12 Op. 10, demonstrou toda a intensidade, tensão e vibração emocional própria dos românticos. Por outro lado, Tchaikovsky escolheu musicalizar os sentimentos de memoráveis personagens da literatura na Abertura para Romeu e Julieta, que, diga-se de passagem, atendeu a expectativa de uma obra a altura dos escritos de Shakespeare. Por fim, Grieg, em A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt, envolve o espectador numa atmosfera lírica, ainda que tratando do tema da aniquilação da existência.

Na música contemporânea, que abrange o período moderno até os movimentos de vanguarda, passaram a ser empregados ritmos livres e sem a instrumentação e estrutura tradicional da música clássica, o que possibilitou um intercâmbio entre a música “erudita” e a popular. De nomes como Errol Garner, Chick Corea e Christian Willisohn surgiram Misty, Crystal Silence e Can the city sound, respectivamente. Composições essas, que revelaram principalmente a influência do romantismo e modernismo, porém com a envolvente tonalidade e a inventividade que só o Blues e o Jazz podem proporcionar.

Em suma, a música, seja nas suas mais longínquas origens ou nas mais recentes tendências, sempre se fez e fará presente como produto da liberdade de pensamento do homem, tornando possível que uma infinidade de inspirações seja eternizada e compartilhada entre seus admiradores, superando barreiras de línguas , de raças e de classes.

Por fim, não há nada melhor que ouvir uma bela sinfonia de Mozart (nº41, K.551 “Júpiter”) e imaginar a trajetória de um fóton nascido no interior do Sol margeando as elegantes curvaturas do espaço-tempo de nosso universo, reviver os dias de ternura da primeira infância com uma composição de Schumann (Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”), ou ainda, se empolgar com o ideal da fraternidade ao som de Beethoven (Sinfonia nº9, Op. 125 – 4º movimento).


Aos apreciadores, deixo os links para as composições citadas no texto.


Bach - Concerto para Dois Violinos BWV 1043
http://www.youtube.com/watch?v=4JG8KkWhsiY&feature=related

Vivaldi - Gloria in Excelsis Deo RV. 589
http://www.youtube.com/watch?v=L38om0zDSHk&feature=related

Händel - Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258
http://www.youtube.com/watch?v=PvCPyuLbEDQ&feature=related

Mozart - Sinfonia nº42 K.75
http://www.youtube.com/watch?v=--t0As77q6I

Beethoven - Sinfonia nº2 Op. 36
http://www.youtube.com/watch?v=x-Xlg8E2e_k

Haydn - Sonata para Piano Hob. XVI/34
http://www.youtube.com/watch?v=9hvz_Hykmr4&feature=related

Chopin - Étude Révolutionaire nº12 Op. 10
http://www.youtube.com/watch?v=qKJKMWeVkwQ

Tchaikovsky - Abertura para Romeu e Julieta
http://www.youtube.com/watch?v=mOfb-YZYU5g

Grieg - A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt
http://www.youtube.com/watch?v=AB4m885sTeE

Errol Garner - Misty
http://www.youtube.com/watch?v=SHZR3ajTE2U&feature=related

Chick Corea - Crystal Silence
http://www.youtube.com/watch?v=0y1cNBpvYw8

Christian Willisohn - Can the city sound
http://www.youtube.com/watch?v=lQHx8AWxEkI

Mozart - Sinfonia nº41, K.551 “Júpiter”
http://www.youtube.com/watch?v=noAPeUlOjfc

Schumann - Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sobre a gratidão

A gratidão não é apenas a maior das virtudes, mas a mãe de todas as outras. Assim disse Marcus Tullius Cícero, um reconhecido escritor e orador romano nascido no ano 106 antes de Cristo.

Para converter a afirmação em fato, basta refletir por um instante e compreender que a gratidão é, entre outras definições, o meio pelo qual o que é justo se conecta ao que é bom, resultando naquilo que denominamos de belo. Dessa forma, por coincidência ou não, a gratidão se resume em valores muito próximos aos que Platão (428 a 348 a.C) propunha como sendo de caráter indispensável ao homem.

Ao lançar luz sobre tudo o que nos trouxe até o ponto que estamos agora, enxergaremos pessoas especiais; que nos abrigaram, nos alimentaram e protegeram, sobretudo quando éramos totalmente indefesos: nossos pais. Porém, a contabilidade do merecido agradecimento, extende-se muito além do seio familiar, a ponto de podermos corroborar a afirmação de que absolutamente todo indivíduo que age para o bem é digno de nossa gratidão.

Ás vezes nos flagramos pensando que somos pequenos demais e, portanto, nossa intervenção neste mundo é nula. Contudo, esse pensamento rapidamente esvaece quando é confrontado com um “obrigado” que nos é direcionado em meio aos eventos corriqueiros do dia-a-dia.

É certo que quando alguém nos agradece, este último reconheceu em nós algum valor. Logo, me parece que uma das “fórmulas” para “ser importante” é servir para ser servido, tendo como “dharma” a máxima de que a vida retribui e transfere.

Há somente verdade no fato de que a maior qualidade do ser humano é transformar para o bem a vida de outro. Um gesto, uma ação, uma palavra que, com sabedoria, são direcionadas a um semelhante podem ser passadas a frente e desencadear grandes mudanças, como numa reação em cadeia. Afinal, desde o nascimento estamos todos ligados por fluxos multidirecionais de interação social, que nada mais são do que a parte mais importante daquilo que chamamos de vida.

Devemos, assim, exercitar constantemente a gratidão, pois sem essas conexões, sem as incontáveis pessoas anônimas (muitas vezes) que interagiram no momento certo em nossas vidas, não chegaríamos a ser o que hoje somos.

Por fim, ser grato nos leva a reconhecer que é a existência do outro que dá sentido à nossa vida. É somente numa relação fraterna de proximidade com o semelhante que nos conectamos novamente a essência do mundo, e porque não dizer à Deus ? Se, assim como pensava Baruch Espinoza, este é a substância da qual tudo é feito.


domingo, 12 de junho de 2011

Sobre a perda


Por vezes, forçosamente, ficamos absorvidos em pensamentos intermináveis enquanto nos deslocamos vagarosamente sobre uma dessas calçadas que margeiam as esquinas da vida. Sequer sabemos como chegamos ali.

A visão embotada e o pensamento distante confundem até mesmo os viajantes mais experientes, pois questiona-se freneticamente se é possível voltar atrás ou se é possível dobrar as esquinas...

Puro desatino! Viver é muito mais arte que ciência. E, na arte, os caminhos são incontáveis. Infinitas maneiras de converter em magia aquilo que é sabido, de se enganar a morte e de ser eterno enquanto se está vivo.

Mas, e as dores lancinantes que fazem contorcer o espírito e fecham a janela que nos apresenta as múltiplas perspectivas da vida?

Com o tempo descobrimos que apesar de termos experimentado o mais invasivo dos males, as navalhas que nos dilaceraram internamente sequer tocaram o tecido do coração. Essas indesejadas lâminas aconteceram, não para nos destruir, mas para lapidar, aparar as arestas...

Assim, o dia depois de ontem comporta não apenas a destruição de antigos paradigmas, mas uma nova acepção sobre a vida, enquanto escolha de diferentes jornadas.

James Lovell, astronauta nas missões Apollo 8 e 13, descreveu que de uma das janelas do módulo de comando da nave Odyssey, podia-se ver a Terra e cobrí-la totalmente usando apenas o seu polegar. Conjecturou que naquele pequeno ponto azul estava encerrado todo o conhecimento que produzimos, tudo aquilo que nos tornamos, e o mais indispensável, o que amamos. Tudo isso escondido atrás de um único dedo.

Talvez, então, amar seja estabelecer um forte contraponto diante da poderosa imagem de nossa insignificância no universo.

Ágape, filos ou eros, só algo muito maior dá sentido às nossas jornadas. Caso contrário nossa pequenina Terra e nós mesmos, somos apenas figurantes, flutuando cercados de intenso infinito por todos os lados.

No dia depois de ontem, precisamos ter coragem para dobrar as esquinas inspirados por valores que transcenderam a maior distância já percorrida pelo homem, conforme observou James Lovell. Neste dia também é necessário admitir que dadas as limitações de nosso vocabulário e a imensidão do mundo que ainda não conhecemos, amor sempre será algo dotado muito mais de valor que de significado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobre uma manhã

Há dias em que acordamos iluminados.
Não importa se nesse dia, por circunstâncias da vida, presenciamos a mágoa, a injúria e a insensatez. A leveza da alma vence a densidade dos problemas e preocupações e nos traz um sorriso permanente por debaixo da pele da face.
Hoje foi um desses dias...

Acordei. O ombro esquerdo recostado na cama, as pernas minuciosamente paralelas.
Os olhos, semi-abertos, confiavam preguiçosamente o despertar aos outros sentidos. Ouvi distante minha mãe, que amavelmente nos preparava o café da manhã. No entanto o som que me despertara não vinha de sua direção , tampouco a crescente luminosidade que adentrava o meu quarto. Um leve giro da cabeça posicionou o ouvido atento e os olhos já despertos sobre o ombro direito. Nesse instante o som difuso tornou-se claro o bastante para elucidar a origem e o motivo de sua existência.
Piava solitário um pássaro saudando a manhã.
Ainda retido na mesma posição, imerso na escuridão que aos poucos se desfazia , pude vislumbrar um feixe de luz que perfurava a fechadura de minha janela. Viajava livre e belo sobre o ar, tal qual um corcel sobre uma pradaria.
Não pude deter as mãos, desejosas do toque na radiante trajetória. A claridade escorrida das extremidades dos dedos precipitava-se novamente no espaço, pousando suavemente sobre o tapete do quarto.

Levantei.
Senti no ar, um cheiro de saudação. A brisa da manhã tudo envolvia, assim como o sonho que eu acabara de acolher no fundo de meus olhos.
Naquela manhã, os fatos não se traduziam em fatos, mas, em acontecimentos, que logo me levaram a indagar: - Que dia é esse, em que a natureza rege com perfeição o canto dos pássaros ? A luz invade meu quarto e meus pensamentos, transmutando-se em palavras, música e sentimento. O que é isso senão a descrição do instante maravilhoso que nos ocorre todas as manhãs ?

Abri a porta.
Em instantes estaria esperando o transporte para a escola.
Cheguei atrasado, o ônibus já partia e mesmo reprimindo minha expressão, meu pai e meu irmão notaram em mim uma estranha felicidade.
Sobre meus olhos, as nuvens desfilavam, as tênues e afiladas folhas de uma árvore lançavam-se ao vento. Acompanhei atento o percurso de uma delas. Sob o signo daquela folha, poderiam ser escritos livros e mais livros...ou talvez uma sinfonia. Sim, a luz que percolava por entre os ramos daquela árvore , se representada em música poderia simular nos ouvidos um evento divino. Depois de uma tarde igualmente surpreendente, chegou a noite. E quando o olhar já corria apressado acima do horizonte, concluí: "- Ah se a alegria desse dia pudesse ser quantificada , certamente eu também seria capaz de contar todas as estrelas deste céu."